"Um amigo me disse, certa vez, que o maior erro que podemos cometer é acharmos que estamos vivos quando, na verdade, estamos dormindo na sala de espera da vida."

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Lobo da Estepe

Já desde o primeiro olhar, ao entrar pela porta envidra-çada da casa de minha tia,
quando ergueu a cabeça à semelhança de um pássaro e aspirou o agradável odor da
casa, de certo modo pressenti a singularidade daquele homem, e a minha primeira
reação a tudo aquilo foi de repugnância. Tive a impressão (e minha tia, que ao
contrário de mim não é de modo algum uma intelectual, teve quase que a mesma
impressão) de que o homem estava enfermo, de que sofria de uma espécie qualquer de
enfermidade, da alma, do espírito ou do caráter, e me defendi contra tudo isso com
meu instinto de pessoa sã. Essa resistência, com o correr do tempo, foi-se
transformando em simpatia, em compaixão para com aquele profundo e permanente
sofredor, cujo isolamento e cuja morte íntima eu contemplava. Nesse decurso, cada
vez mais me convencia de que a enfermidade daquele paciente não provinha de
qualquer deficiência de sua natureza, mas, ao contrário, tão-somente da não lograda
harmonia entre a riqueza de seus dons e sua força. Convenci-me de que Haller era um
gênio do sofrimento; que ele, no sentido de várias acepções de Nietzsche, havia
forjado dentro de si uma capacidade de sofrimento genial, ilimitada e terrível.
Também me apercebi de que a base de seu pessimismo não era "o desprezo do
mundo'', mas antes o desprezo de si mesmo, pois podendo falar sem indulgência e
impiedosamente das instituições e das pessoas, nunca se excluía a si próprio; era
sempre o primeiro a quem dirigia suas setas, o primeiro a quem odiava e desprezava.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Desespero é a "Doença Mortal"

Nessa última acepção, o desespero é portanto a "doença mortal", esse suplício contraditório, essa enfermidade do eu: eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte. Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a morte; vivê-la um só instante, é vivê-la eternamente. Para que se morresse de desespero como duma doença, o que há de eterno em nós, no eu, deveria poder morrer, como o corpo morre de doença. Ilusão! No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver. Quem desespera não pode morrer; assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim também o desespero, verme imortal, fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu, que é o seu próprio sustentáculo. Mas esta destruição de si própria que é o desespero é impotente e não consegue os seus fins. A sua vontade própria é destruir-se, mas é o que ela não pode fazer, e a própria impotência é uma segunda forma da sua destruição, na qual o desespero pela segunda vez erra o seu alvo, a destruição do eu; é, pelo contrário, uma acumulação de ser, ou a própria lei dessa acumulação. Eis o ácido, a gangrena do desespero, esse suplício cuja ponta, dirigida sobre o interior, nos afunda cada vez mais numa autodestruição impotente. Bem longe de consolar o desesperado, pelo contrário, o insucesso do seu desespero em destruí-lo é uma tortura, reanimada pelo seu rancor; porque é acumulando sem cessar, no presente, o desespero pretérito que ele desespera por não poder devorar-se nem libertar-se  do seu eu, nem aniquilar-se. Tal é a fórmula de acumulação do desespero, o crescer da febre nesta doença do eu.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Saudosismo - Caetano Veloso e Os Mutantes


Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos
A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões
Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Pirata - Ave Sangria



Não se iluda, minha calma não tem nada a ver
Sou bandido, sou sem alma e minto
Minha casa é o reino do mal
Meu pai é um animal
Minha mãe há muito que enlouqueceu
Só resta eu com a minha faca e a minha nau
Só resta eu com a minha faca e a minha nau
Sou pirata, solitário, sem mais nada
Sem bandeira, sem espada, no mar pra viver
Sangue e vinho derramados no convés
Sons de gaitas, violões e pés
Quando de repente surgem dez canhões
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Não me ame, eu não quero ver você assim
Vá-se embora, eu não choro, sei cuidar de mim
Eu não tenho todas essas ilusões e apesar de ter tantos corações
Minha guerra nunca, nunca vai ter fim
Sim, sim eu sei, faço meu sorriso e faço minha lei
Sim, sim eu sei, faço meu sorriso e faço minha lei
Sou pirata, solitário, sem mais nada
Sem bandeira, sem espada, no mar pra viver
Sangue e vinho derramados no convés
Sons de gaitas, violões e pés
Quando de repente surgem dez canhões
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções

terça-feira, 19 de abril de 2011

Realidade do Absurdo

Outros, igualmente sem transigir, escolheram o eterno e denunciaram a ilusão deste mundo. Seus cemitérios sorriem, povoados de flores e de pássaros. Isso convém ao conquistador e lhe dá a imagem clara do que ele repeliu. Escolheu, ao contrário, a cerca de ferro preto ou a vala comum. Os melhores dentre os homens do eterno às vezes se sentem tomados de um espanto repleto de consideração e piedade diante de espíritos que podem viver com uma semelhante imagem de sua morte. No entanto, esses espíritos extraem daí a sua força e a sua justificação. Nosso destino está diante de nós e é ele que desafiamos. Menos por orgulho do que por consciência da nossa condição sem perspectiva. Também nós, até nós temos às vezes piedade aceitável: um sentimento que talvez você não compreenda e ache pouco viril. No entanto, são os mais audaciosos dentre nós que o experimentam. Mas nós chamamos viris os lúcidos e não queremos uma força que se separe da lucidez

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A.L.

Trata-se, para ele, de ver claro. Nós só chamamos amor o que nos liga a certos seres por alusão a um modo de ver coletivo e pelo qual os livros e as lendas são responsáveis. Mas conheço apenas, do amor, essa mescla de desejo, de ternura e inteligência que me liga a um ser. Esse composto não é o mesmo para um outro. Não tenho o direito de estender a todas essas experiências o mesmo nome. O que dispensa de as levar adiante com os mesmos gestos. O homem absurdo também aqui multiplica o que ele não pode unificar. Assim, descobre uma nova maneira de ser que o libera ao menos tanto quanto libera os que dele se aproximam. Não há amor generoso além daquele que se sabe ao mesmo tempo singular e passageiro. São todas essas mortes e todos esses renascimentos que fazem para Dom Juan o feixe de sua vida. É a maneira que ele tem de dar e de fazer viver. Deixo para ser julgado se se pode falar de egoísmo.

Albert Camus, O Mito de Sísifo

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O segundo que é presente e passado

Ocorres que os cenários se desmoronam, Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o "porquê" desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. "Começa", isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mais inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não tem nada de original. Ma são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples "preocupação" está na origem de tudo.
Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: "amanhã", "mais tarde", "quando tiver uma situação", "com o tempo você vai compreender". Essas inconseqüências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanhã, ele queria tanto amanhã, quando ele próprio deveria ter-se recusado inteiramente a isso. Essa revolta de carne é o absurdo.