"Um amigo me disse, certa vez, que o maior erro que podemos cometer é acharmos que estamos vivos quando, na verdade, estamos dormindo na sala de espera da vida."

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moleque Maravilhoso - Raul Seixas


Eu nunca cometo pequenos erros
enquanto eu posso causar terremotos
e das tempestades já não tenho medo
acordo mais cedo

Eu nunca me animo de ir ao trabalho
eu sou o coringa de todo o baralho
sou carta marcada em jogo roubado
a morte ao meu lado

Eu sou um moleque maravilhoso
num certo sentido mais perigoso
moleque da rua
moleque do mundo
moleque do espaço

Quebrando vidraças do velho Ricardo
nessa vizinhança sou filho bastardo
com o meu bodoque sempre no pescoço
eu exijo o meu, eu exijo o meu
eu exijo o meu osso

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A vida adversa


Quiçá seja mera crise de identidade, ou eu esteja vivendo uma necrofagia anacrônica da década de 60/70, ou ainda não tenha acordado para a ultra-contemporaneidade e esteja apenas sonhando um fascinante musical hippie.
Paz e Amor morreram, o flowerpower não faz mais sentido após mais de 40 anos do primeiro Woodstock, ninguém mais dá a mínima para bandas como Os Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados, Tom Zé, Doces Bárbaros, Ave Sangria, A Cor do Som, Bicho da Seda ou A Chave ( e isto porque só mencionei bandas brasileiras). Se um dia "a música como principio organizacional", tão sonhado nos versos de Nietzche, poderia ser o reflexo do movimento hippie, hoje não é mais do que uma utopia, uma tentativa frustrada. No passado apenas músicos tentando fugir das maneiras de poder, da angústia do cotidiano, morando em suas comunidades e não fazendo nada além de se deixar mover por sua vontade.
A questão é que a comtemporaneidade vai bem, obrigado... para aqueles que não se importam em viver numa vitríne de valores, que se contentam com sua espúria e limitada liberdade de consumo (você prefere o all star preto e/o azul? Quantos sachês de ketchup? Mais bebida, senhor? Marlboro ou Lucky Strike? As casas Bahia fazem tudo em 600 prestações, tudo para o bem estar de sua família) ou ainda para pessoas que almejam coisas simplórias como um emprego estável, uma mulher submissa, uma família nuclear com dois filhos para poder ir à missa aos domingos e poder disputar neste conclave social qual é a família que mais se parece com à de um comercial de margarina... ah, é claro, tinha me esquecido do carro modelo 2011 que vai demorar 20 anos para que o dono deste emprego estável consiga pagar a dívida, mesmo sem a perspectiva econômica de conseguir grana para colocar a gasolina não subtrai a felicidade deste de poder lavá-lo todos os domingos a tarde, mostrando para todos os seus vizinhos quem é o maldito burguês em ascensão neste bairro imundo...
Não! Eu não quero nenhuma destas alternativas pra minha vida, assim como não quero perder mais meus finais de semana em festivais culturais burgueses de "música popular brasileira".... enfim, isto é apenas um desabafo de alguém que deveria ter nascido há 50 ou 60 anos atrás...

"Hey bicho, onde é que vai com essa flor no cabelo, com este sorriso de paz e desespero... olhe pro lado e você vai entender, entender..."
- Teddy Boy, Rock e Brilhantina, Raul Seixas

Universal Mind - The Doors



a solitude...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quase que minha vida...

Eu não tinha pais.
Eu adotei o céu e a terra como meus pais ! 


Eu não tinha casa.
Eu adotei estar consciente como minha casa. 


Pra mim não existia vida e morte.
Eu adotei a respiração e a aspiração como vida e morte. 


Eu não possuía meios.
Eu adotei a compreensão como meu meio. 


Eu não possuía habilidades especiais.
Eu adotei a falta de moral como minha habilidade especial. 


Eu não possuía olhos.
Eu adotei ser rápido como a luz como meus olhos. 


Eu não possuía ouvidos.
Eu adotei a sensibilidade como meu ouvido. 


Eu não possuía membros.
Eu adotei a agilidade como meus membros. 


Eu não possuía estratégias.
Eu adotei não desvanecer de pensamento como minha estratégia. 


Eu não possuía projetos.
Eu adotei prever oportunidades como meu projeto.



Eu não possuía princípios.
Eu adotei me adaptar às situações como meu princípio. 


Eu não tinha amigos.
Eu adotei meu coração como meu amigo.



Eu não possuía talentos.
Eu adotei o ser persistente como meu talento.



Eu não possuía inimigos.
Eu adotei a imprudência como minha inimiga. 


Pra mim não existia milagre.
Eu adotei levar a vida a meu modo como milagre.
 


Eu não possuía corpo.
Eu adotei a paciência como meu corpo. 


Eu não possuía armadura.
Eu adotei a compaixão como minha armadura. 


Eu não era iluminado.
Eu adotei a determinação como minha iluminação. 


Eu não possuía espada.
Eu adotei a ausência de ego como minha espada. 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Seu Amor

O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é
Ser o que ele é

Doces Bárbaros

(a transcendência da libertinagem)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Deixe Entrar Um Pouco D'água no Quintal

Chuva de Espinhos sobre o coração
Faz sangrar no fundo e a ilusão
Não tem mais sentido não tem mais lugar
Numa vida cheia limpa como o ar
Vou correr para as nuvens
Já que a vida corre e o tempo não se vê
Faça tudo simples olhe p'ra você
Mude de idéia se esse for o caso
Deixe entrar um pouco d'água no quintal
Fique em pé sem se cansar
Quanta coisa de errado eu já fiz
Tudo está gravado em algum lugar
Já é hora de equilibrar. Mutação
Foi por culpa minha o que eu deixei passar
Quanto mais se dorme menos tem p'ra dar
Mexa-se rapaz não deixe de entender
Abra bem os olhos para o amanhecer
Faça força irmão não morrer
Deus criou os anjos para nos guiar
Dê um pouco o braço deixe um pegar
Não se desespere com a escuridão
Abra a mente deixe entrar a inspiração
E o que é bom vem depois
Muita estrada em minha vida já andei
Quase nem senti o rumo que tomei
Não sou mais não sou menos


Os Mutantes

Marcianita

Esperada marcianita
Asseguram os homens de ciência
Que em dez anos mais, tu e eu
Estaremos bem juntinhos
E nos cantos escuros do céu falaremos de amor

Tenho tanto te esperado
Mas serei o primeiro varão a chegar até onde estás
Pois na Terra sou logrado
Em matéria de amor eu sou sempre passado pra trás

Eu quero um broto de Marte que seja sincero
Que não se pinte, nem fume
Nem saiba sequer o que é rock and roll

Marcianita, branca ou negra
Gorduchinha, magrinha, baixinha ou gigante
Serás meu amor
A distância nos separa

mas no ano 70 seremos felizes os dois


Gal Costa

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um Projeto de Esboço do Cotidiano

"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? E isso faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo 'esboço' não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vez é como não viver nunca."