Já desde o primeiro olhar, ao entrar pela porta envidra-çada da casa de minha tia,
quando ergueu a cabeça à semelhança de um pássaro e aspirou o agradável odor da
casa, de certo modo pressenti a singularidade daquele homem, e a minha primeira
reação a tudo aquilo foi de repugnância. Tive a impressão (e minha tia, que ao
contrário de mim não é de modo algum uma intelectual, teve quase que a mesma
impressão) de que o homem estava enfermo, de que sofria de uma espécie qualquer de
enfermidade, da alma, do espírito ou do caráter, e me defendi contra tudo isso com
meu instinto de pessoa sã. Essa resistência, com o correr do tempo, foi-se
transformando em simpatia, em compaixão para com aquele profundo e permanente
sofredor, cujo isolamento e cuja morte íntima eu contemplava. Nesse decurso, cada
vez mais me convencia de que a enfermidade daquele paciente não provinha de
qualquer deficiência de sua natureza, mas, ao contrário, tão-somente da não lograda
harmonia entre a riqueza de seus dons e sua força. Convenci-me de que Haller era um
gênio do sofrimento; que ele, no sentido de várias acepções de Nietzsche, havia
forjado dentro de si uma capacidade de sofrimento genial, ilimitada e terrível.
Também me apercebi de que a base de seu pessimismo não era "o desprezo do
mundo'', mas antes o desprezo de si mesmo, pois podendo falar sem indulgência e
impiedosamente das instituições e das pessoas, nunca se excluía a si próprio; era
sempre o primeiro a quem dirigia suas setas, o primeiro a quem odiava e desprezava.