"Um amigo me disse, certa vez, que o maior erro que podemos cometer é acharmos que estamos vivos quando, na verdade, estamos dormindo na sala de espera da vida."

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Lobo da Estepe

Já desde o primeiro olhar, ao entrar pela porta envidra-çada da casa de minha tia,
quando ergueu a cabeça à semelhança de um pássaro e aspirou o agradável odor da
casa, de certo modo pressenti a singularidade daquele homem, e a minha primeira
reação a tudo aquilo foi de repugnância. Tive a impressão (e minha tia, que ao
contrário de mim não é de modo algum uma intelectual, teve quase que a mesma
impressão) de que o homem estava enfermo, de que sofria de uma espécie qualquer de
enfermidade, da alma, do espírito ou do caráter, e me defendi contra tudo isso com
meu instinto de pessoa sã. Essa resistência, com o correr do tempo, foi-se
transformando em simpatia, em compaixão para com aquele profundo e permanente
sofredor, cujo isolamento e cuja morte íntima eu contemplava. Nesse decurso, cada
vez mais me convencia de que a enfermidade daquele paciente não provinha de
qualquer deficiência de sua natureza, mas, ao contrário, tão-somente da não lograda
harmonia entre a riqueza de seus dons e sua força. Convenci-me de que Haller era um
gênio do sofrimento; que ele, no sentido de várias acepções de Nietzsche, havia
forjado dentro de si uma capacidade de sofrimento genial, ilimitada e terrível.
Também me apercebi de que a base de seu pessimismo não era "o desprezo do
mundo'', mas antes o desprezo de si mesmo, pois podendo falar sem indulgência e
impiedosamente das instituições e das pessoas, nunca se excluía a si próprio; era
sempre o primeiro a quem dirigia suas setas, o primeiro a quem odiava e desprezava.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Desespero é a "Doença Mortal"

Nessa última acepção, o desespero é portanto a "doença mortal", esse suplício contraditório, essa enfermidade do eu: eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte. Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a morte; vivê-la um só instante, é vivê-la eternamente. Para que se morresse de desespero como duma doença, o que há de eterno em nós, no eu, deveria poder morrer, como o corpo morre de doença. Ilusão! No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver. Quem desespera não pode morrer; assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim também o desespero, verme imortal, fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu, que é o seu próprio sustentáculo. Mas esta destruição de si própria que é o desespero é impotente e não consegue os seus fins. A sua vontade própria é destruir-se, mas é o que ela não pode fazer, e a própria impotência é uma segunda forma da sua destruição, na qual o desespero pela segunda vez erra o seu alvo, a destruição do eu; é, pelo contrário, uma acumulação de ser, ou a própria lei dessa acumulação. Eis o ácido, a gangrena do desespero, esse suplício cuja ponta, dirigida sobre o interior, nos afunda cada vez mais numa autodestruição impotente. Bem longe de consolar o desesperado, pelo contrário, o insucesso do seu desespero em destruí-lo é uma tortura, reanimada pelo seu rancor; porque é acumulando sem cessar, no presente, o desespero pretérito que ele desespera por não poder devorar-se nem libertar-se  do seu eu, nem aniquilar-se. Tal é a fórmula de acumulação do desespero, o crescer da febre nesta doença do eu.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Saudosismo - Caetano Veloso e Os Mutantes


Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos
A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões
Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Pirata - Ave Sangria



Não se iluda, minha calma não tem nada a ver
Sou bandido, sou sem alma e minto
Minha casa é o reino do mal
Meu pai é um animal
Minha mãe há muito que enlouqueceu
Só resta eu com a minha faca e a minha nau
Só resta eu com a minha faca e a minha nau
Sou pirata, solitário, sem mais nada
Sem bandeira, sem espada, no mar pra viver
Sangue e vinho derramados no convés
Sons de gaitas, violões e pés
Quando de repente surgem dez canhões
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Não me ame, eu não quero ver você assim
Vá-se embora, eu não choro, sei cuidar de mim
Eu não tenho todas essas ilusões e apesar de ter tantos corações
Minha guerra nunca, nunca vai ter fim
Sim, sim eu sei, faço meu sorriso e faço minha lei
Sim, sim eu sei, faço meu sorriso e faço minha lei
Sou pirata, solitário, sem mais nada
Sem bandeira, sem espada, no mar pra viver
Sangue e vinho derramados no convés
Sons de gaitas, violões e pés
Quando de repente surgem dez canhões
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções
Era o Barba Negra com a sua turma e suas canções

terça-feira, 19 de abril de 2011

Realidade do Absurdo

Outros, igualmente sem transigir, escolheram o eterno e denunciaram a ilusão deste mundo. Seus cemitérios sorriem, povoados de flores e de pássaros. Isso convém ao conquistador e lhe dá a imagem clara do que ele repeliu. Escolheu, ao contrário, a cerca de ferro preto ou a vala comum. Os melhores dentre os homens do eterno às vezes se sentem tomados de um espanto repleto de consideração e piedade diante de espíritos que podem viver com uma semelhante imagem de sua morte. No entanto, esses espíritos extraem daí a sua força e a sua justificação. Nosso destino está diante de nós e é ele que desafiamos. Menos por orgulho do que por consciência da nossa condição sem perspectiva. Também nós, até nós temos às vezes piedade aceitável: um sentimento que talvez você não compreenda e ache pouco viril. No entanto, são os mais audaciosos dentre nós que o experimentam. Mas nós chamamos viris os lúcidos e não queremos uma força que se separe da lucidez

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A.L.

Trata-se, para ele, de ver claro. Nós só chamamos amor o que nos liga a certos seres por alusão a um modo de ver coletivo e pelo qual os livros e as lendas são responsáveis. Mas conheço apenas, do amor, essa mescla de desejo, de ternura e inteligência que me liga a um ser. Esse composto não é o mesmo para um outro. Não tenho o direito de estender a todas essas experiências o mesmo nome. O que dispensa de as levar adiante com os mesmos gestos. O homem absurdo também aqui multiplica o que ele não pode unificar. Assim, descobre uma nova maneira de ser que o libera ao menos tanto quanto libera os que dele se aproximam. Não há amor generoso além daquele que se sabe ao mesmo tempo singular e passageiro. São todas essas mortes e todos esses renascimentos que fazem para Dom Juan o feixe de sua vida. É a maneira que ele tem de dar e de fazer viver. Deixo para ser julgado se se pode falar de egoísmo.

Albert Camus, O Mito de Sísifo

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O segundo que é presente e passado

Ocorres que os cenários se desmoronam, Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o "porquê" desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. "Começa", isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mais inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não tem nada de original. Ma são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples "preocupação" está na origem de tudo.
Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: "amanhã", "mais tarde", "quando tiver uma situação", "com o tempo você vai compreender". Essas inconseqüências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanhã, ele queria tanto amanhã, quando ele próprio deveria ter-se recusado inteiramente a isso. Essa revolta de carne é o absurdo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Primavera nos Dentes - Secos & Molhados



Quem tem consciência pra se ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a Primavera

domingo, 27 de março de 2011

Dois Navegantes - Ave Sangria



Aqui estamos juntos
Ao por-do-sol
Dois navegantes
No mesmo barco
Aqui estamos sós
Ao por-do-sol
Andando lado a lado
No mesmo mar
Não deixes a vela apagar
Nem o mastro cair
Nem a corda prender
Só deixes o vento que solta
Teus cabelos
Espelhos dos meus
Te soprar
E soprar em mim
Pra depois
Deslisar em ti
Deslisar em mim

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Homem é o Remorso do Mundo

"(...) Quando os instrumentos estão quebrados, fora de uso, os planos frustrados, os esforços inúteis, o mundo aparece com um frescor infantil e terrível, sem pontos de apoios, sem caminhos. Ele tem aí o máximo de realidade porque é esmagador para o homem, e, como a ação de qualquer modo generaliza, a derrota confere às coisas sua realidade individual. Mas, por uma inversão prevista, o fracasso considerado como fim derradeiro é ao mesmo tempo contestação e apropriação desse universo. Contestação porque o homem vale mais do que aquilo que o esmaga; ele não contesta mais as coisas em seu ‘pouco de realidade’, com o engenheiro ou o capitão, mas, ao contrário, em seu excesso de realidade, exatamente por sua condição de vencido; o homem é o remorso do mundo. Apropriação, porque o mundo, deixando de ser instrumento de êxito, torna-se instrumento de fracasso. Ei-lo percorrido por uma obscura finalidade; o mundo passa a servir por seu coeficiente de adversidade: tanto mais humano quando mais hostil ao homem."

quarta-feira, 16 de março de 2011

C A O S

O Caos nunca morreu. Bloco intacto e primordial, único monstro digno de adoração, inerte e espontâneo, mais ultravioleta do que qualquer mitologia (como as sombras anteriores à Babilônia), a original e indiferenciada unidade-do-ser ainda resplandece, impertubável como as flâmulas negras frenéticas e perpetuamente embriagadas dos Assassinos.
O caos é anterior a todos os princípios de ordem e entropia, não é nem um deus nem uma larva, seus desejos primais englobam e definem toda a coreografia possível, todos éteres e flogísticos sem sentido algum: suas máscaras, como nuvens, são cristalizações da sua própria ausência de rosto.
Tudo na Natureza, inclusive a consciência, é perfeitamente real: não há absolutamente nada com o que se preocupar, As correntes da Lei não foram apenas quebradas, elas nunca existiram. Demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer.
Não. Ouça, foi isso que aconteceu: eles mentiram, venderam-lhe idéias de bem e mal, infundiram-lhe a desconfiança de seu próprio corpo e a vergonha pela sua condição de profeta do caos, inventaram palavras de nojo para seu amor molecular, hipnotizaram-no com a falta de atenção, entediaram-no com a civilização e todas as suas emoções mesquinhas.
Não há transformação, revolução, luta, caminho. Você já é o monarca de sua própria pele - sua liberdade inviolável espera ser completa apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu.
Para lograr mão de todos os acertos e hesitações ilusórias da história, é preciso evocar uma economia  de uma Idade da Pedra lendária - xamãs e não padres, bardos e não senhores, caçadores e não policiais, coletores paleoliticamente preguiçosos, gentis como sangue, que ficam nús para simbolizar algo ou se pintam como pássaros, equilibrados a onda da presença explícita, o agora sempre atemporal.
Agentes do caos lançam olhares ardentes a qualquer coisa ou pessoa capaz de suportar ser testemunha de sua condição, sua febre por lux et voluptas. Estou desperto apenas no que amo e desejo até o limite do terror  - todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia diária, merda para cérebros, tédio sub-réptil de regimes totalitários, censura banal e dor desnecessária.
Avatares do Caos como espiões sabotadores, criminosos do amor louco, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, semelhantes a bárbaros, perseguidos por obsessões, desempregados, sexualmente perturbados, anjos terríveis, espelhos para a contemplação, olhos que lembram flores, piratas de todos os signos e sentidos.
Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entre as paredes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitos paranóicos. Arrancados da tribo pela nostalgia selvagem, escavamos em busca de mundos perdidos, bombas imaginárias.
A última proeza possível é aquela que define a própria percepção, um invisível cordão de ouro que nos conecta: dança ilegal pelos corredores do tribunal. Se eu fosse beijar você aqui, chamariam isso de um ato de terrorismo - então vamos levar nossos revólveres para a cama e acordar a cidade à meia-noite como bandidos bêbados celebrando a mensagem do sabor e do caos com um tiroteio.

terça-feira, 15 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

A Loucura Torna a Vida Suportável

"Suponho que alguém olhe lá de cima a vida do homem, como o Júpiter dos poetas o faz por vezes, e observe a quantidade de males que o acabrunham., seu nascimento humilhante, sua educação difícil, os perigos de sua infância,  os duros trabalhos impostos em sua juventude, sua penosa velhice,  a dura necessidade de morte, após tantas doenças, problemas que o assaltam de todos os lados, que envenenam sua vida inteira. Sem falar dos males que o homem causa ao homem: ele destrói, prende, desonra, tortura, prega peças, trai. Enumerar tudo, com ultrajes, os processos, as trapaças, seria como contar grãos de areia.
Não saberia dizer que malefícios trouxeram tal sorte ao homem, nem que Deus irritado os condenou a nascer nessa miséria.Quem quiser analisar a fundo essa condição, haverá de aprovar o exemplo das jovens de Mileto e seu suicídio, embora digno de compaixão. Quais foram aqueles que se suicidaram motivados pelo desgosto da vida? Os amigos mais próximos da sabedoria. Para não falar de Diógenes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto, lembro de Quirão que preferiu a morte no momento que podia conseguir a imortalidade. Acredito que pressentis muito bem o que haveria de acontecer, se por toda parte os homens fossem sábios. Seria necessário que outro Prometeu petrificasse outra argila. De minha parte, bem pelo contrário auxiliada pela Ignorância e pela Irreflexão, levo os homens a esquecer sua miséria, esperar a felicidade, a provar de vez em quando o mel dos prazeres, mesmo quando as Parcas teceram toda a sua trama e que a própria vida os abandona.
A vida não os aborrece de modo algum. Quanto menos motivos tem pra viver, mais se agarram à vida. São meus adeptos esses velhos que atingiram a idade de Nestor e que perderam quase toda a forma humana, que são bistos balbuciando, falando disparates, com dentes partidos, de cabelos brancos ou calvos ou, para descrevê-los melhor, com as palavras de Aristófanes, sujos, corcundas, calvos e desdentados, sem queixo, mas agarrando-se ainda com gosto à vida. Por isso procuram rejuvenescer-se, um tingindo os cabelos, outro usando peruca, este colocando dentes falsos e fazendo com ela mais loucuras que um jovem em pleno vigor. Aquele moribundo, prestes a pôr o pé no túmulo, casa sem dote com um broto que vai fazer a alegria dos vizinho; esses casos são freqüentes e, juro, ainda são motivo de elogio.
Mais encantador ainda é ver velhas, tão velhas e cadavéricas que aparecem ter voltado do inferno, repetir sem cessar: "A vida é bela!" São quentes como cadelas no cio ou, como dizem despudoradamente os gregos, pressentem o cheiro de bode, Seduzem a preço de ouro qualquer jovem Faon, se maquiam com esmero, estãoi sempre de espelho na mão, depilam-se no lugar secreto, ostentam seios flácidos e murchos, pedem com voz trêmula a satisfação de um desejo que fenece, põem-se a beber, dançar entre as jovens, a escrever cartas amorosas, Todos se riem delas dizem realmente o que elas são, superloucas. Esperando uma oportunidade, elas estão contentes consigo mesmas, se satisfazem com mil prazeres, aproveitam todas as delícias e, para mim, elas são felizes.
Peço que todos aqueles que as acham ridículas analisem se não é melhor desfrutar dessa doce loucura do que procurar, como se diz, uma árvore para se enforcar. Certamente, a desonra não se atribui à conduta de meus loucos nada significa para eles,  sequer se mantém atingidos ou não dão atenção nenhuma. Levar uma pedrada na cabeça é um mal que existe; a vergonha, a infâmia, , o opróbio, o insulto são males a partir do momento em que os sentimos. Não há mal algum quando nada se sente. Todo mundo te vaia; não é nada, se tu te aplaude e somente a Loucura te leva a isso."

Angra dos Reis - Legião Urbana



deixa... pra lá

O Sol e a Lua

na idade média, existiram um padre e uma freira que se amavam intensamente, todavia os valores morais e os dogmas de suas posições sociais, na época, faziam com que ambos escondessem o que sentiam um pelo outro e  nunca tiveram a oportunidade de ficar juntos como amantes, foi então que eles começaram a se ver como o Sol e a Lua, ou o dia e a noite... que são amantes eternos e um sempre precisa do outro (assim como a escuridão sempre vai precisar da luminosidade e vice-versa), no entanto nunca poderiam se tocar, pois estão sempre em lados opostos da mesma moeda, quando começa o dia acaba a noite, assim como quando o Sol está para se por a Lua vai invadindo o seu espaço no céu, mas nunca se encontram, nunca se tocam, sempre em lados opostos

Mi and L'au - Bingo




doce gotejo de lembranças...

Monólogo de Duas Pessoas


Eu e Você (sem dizer nada... mas entendemos tudo)
s2 Amuh!

Condicional - Los Hermanos



o que me importa são as lembranças que ficaram =/

Parcela de minha Pessoa

Através dos pesares
se escondem lâminas do passado
a madeira das paredes
em meu pequeno universo sensível

A rua continua a mesma
alguns domingos cheiram peixe
consciência que goteja lembranças
é apenas o presente que insiste andar de costas

Através dos pesares
não transmutaria nenhuma tolice
minha cor sempre será o verde
só não devia fingir ser um rato

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moleque Maravilhoso - Raul Seixas


Eu nunca cometo pequenos erros
enquanto eu posso causar terremotos
e das tempestades já não tenho medo
acordo mais cedo

Eu nunca me animo de ir ao trabalho
eu sou o coringa de todo o baralho
sou carta marcada em jogo roubado
a morte ao meu lado

Eu sou um moleque maravilhoso
num certo sentido mais perigoso
moleque da rua
moleque do mundo
moleque do espaço

Quebrando vidraças do velho Ricardo
nessa vizinhança sou filho bastardo
com o meu bodoque sempre no pescoço
eu exijo o meu, eu exijo o meu
eu exijo o meu osso

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A vida adversa


Quiçá seja mera crise de identidade, ou eu esteja vivendo uma necrofagia anacrônica da década de 60/70, ou ainda não tenha acordado para a ultra-contemporaneidade e esteja apenas sonhando um fascinante musical hippie.
Paz e Amor morreram, o flowerpower não faz mais sentido após mais de 40 anos do primeiro Woodstock, ninguém mais dá a mínima para bandas como Os Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados, Tom Zé, Doces Bárbaros, Ave Sangria, A Cor do Som, Bicho da Seda ou A Chave ( e isto porque só mencionei bandas brasileiras). Se um dia "a música como principio organizacional", tão sonhado nos versos de Nietzche, poderia ser o reflexo do movimento hippie, hoje não é mais do que uma utopia, uma tentativa frustrada. No passado apenas músicos tentando fugir das maneiras de poder, da angústia do cotidiano, morando em suas comunidades e não fazendo nada além de se deixar mover por sua vontade.
A questão é que a comtemporaneidade vai bem, obrigado... para aqueles que não se importam em viver numa vitríne de valores, que se contentam com sua espúria e limitada liberdade de consumo (você prefere o all star preto e/o azul? Quantos sachês de ketchup? Mais bebida, senhor? Marlboro ou Lucky Strike? As casas Bahia fazem tudo em 600 prestações, tudo para o bem estar de sua família) ou ainda para pessoas que almejam coisas simplórias como um emprego estável, uma mulher submissa, uma família nuclear com dois filhos para poder ir à missa aos domingos e poder disputar neste conclave social qual é a família que mais se parece com à de um comercial de margarina... ah, é claro, tinha me esquecido do carro modelo 2011 que vai demorar 20 anos para que o dono deste emprego estável consiga pagar a dívida, mesmo sem a perspectiva econômica de conseguir grana para colocar a gasolina não subtrai a felicidade deste de poder lavá-lo todos os domingos a tarde, mostrando para todos os seus vizinhos quem é o maldito burguês em ascensão neste bairro imundo...
Não! Eu não quero nenhuma destas alternativas pra minha vida, assim como não quero perder mais meus finais de semana em festivais culturais burgueses de "música popular brasileira".... enfim, isto é apenas um desabafo de alguém que deveria ter nascido há 50 ou 60 anos atrás...

"Hey bicho, onde é que vai com essa flor no cabelo, com este sorriso de paz e desespero... olhe pro lado e você vai entender, entender..."
- Teddy Boy, Rock e Brilhantina, Raul Seixas

Universal Mind - The Doors



a solitude...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quase que minha vida...

Eu não tinha pais.
Eu adotei o céu e a terra como meus pais ! 


Eu não tinha casa.
Eu adotei estar consciente como minha casa. 


Pra mim não existia vida e morte.
Eu adotei a respiração e a aspiração como vida e morte. 


Eu não possuía meios.
Eu adotei a compreensão como meu meio. 


Eu não possuía habilidades especiais.
Eu adotei a falta de moral como minha habilidade especial. 


Eu não possuía olhos.
Eu adotei ser rápido como a luz como meus olhos. 


Eu não possuía ouvidos.
Eu adotei a sensibilidade como meu ouvido. 


Eu não possuía membros.
Eu adotei a agilidade como meus membros. 


Eu não possuía estratégias.
Eu adotei não desvanecer de pensamento como minha estratégia. 


Eu não possuía projetos.
Eu adotei prever oportunidades como meu projeto.



Eu não possuía princípios.
Eu adotei me adaptar às situações como meu princípio. 


Eu não tinha amigos.
Eu adotei meu coração como meu amigo.



Eu não possuía talentos.
Eu adotei o ser persistente como meu talento.



Eu não possuía inimigos.
Eu adotei a imprudência como minha inimiga. 


Pra mim não existia milagre.
Eu adotei levar a vida a meu modo como milagre.
 


Eu não possuía corpo.
Eu adotei a paciência como meu corpo. 


Eu não possuía armadura.
Eu adotei a compaixão como minha armadura. 


Eu não era iluminado.
Eu adotei a determinação como minha iluminação. 


Eu não possuía espada.
Eu adotei a ausência de ego como minha espada. 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Seu Amor

O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é
Ser o que ele é

Doces Bárbaros

(a transcendência da libertinagem)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Deixe Entrar Um Pouco D'água no Quintal

Chuva de Espinhos sobre o coração
Faz sangrar no fundo e a ilusão
Não tem mais sentido não tem mais lugar
Numa vida cheia limpa como o ar
Vou correr para as nuvens
Já que a vida corre e o tempo não se vê
Faça tudo simples olhe p'ra você
Mude de idéia se esse for o caso
Deixe entrar um pouco d'água no quintal
Fique em pé sem se cansar
Quanta coisa de errado eu já fiz
Tudo está gravado em algum lugar
Já é hora de equilibrar. Mutação
Foi por culpa minha o que eu deixei passar
Quanto mais se dorme menos tem p'ra dar
Mexa-se rapaz não deixe de entender
Abra bem os olhos para o amanhecer
Faça força irmão não morrer
Deus criou os anjos para nos guiar
Dê um pouco o braço deixe um pegar
Não se desespere com a escuridão
Abra a mente deixe entrar a inspiração
E o que é bom vem depois
Muita estrada em minha vida já andei
Quase nem senti o rumo que tomei
Não sou mais não sou menos


Os Mutantes

Marcianita

Esperada marcianita
Asseguram os homens de ciência
Que em dez anos mais, tu e eu
Estaremos bem juntinhos
E nos cantos escuros do céu falaremos de amor

Tenho tanto te esperado
Mas serei o primeiro varão a chegar até onde estás
Pois na Terra sou logrado
Em matéria de amor eu sou sempre passado pra trás

Eu quero um broto de Marte que seja sincero
Que não se pinte, nem fume
Nem saiba sequer o que é rock and roll

Marcianita, branca ou negra
Gorduchinha, magrinha, baixinha ou gigante
Serás meu amor
A distância nos separa

mas no ano 70 seremos felizes os dois


Gal Costa

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um Projeto de Esboço do Cotidiano

"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? E isso faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo 'esboço' não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vez é como não viver nunca."