"Um amigo me disse, certa vez, que o maior erro que podemos cometer é acharmos que estamos vivos quando, na verdade, estamos dormindo na sala de espera da vida."
sábado, 26 de fevereiro de 2011
A vida adversa
Quiçá seja mera crise de identidade, ou eu esteja vivendo uma necrofagia anacrônica da década de 60/70, ou ainda não tenha acordado para a ultra-contemporaneidade e esteja apenas sonhando um fascinante musical hippie.
Paz e Amor morreram, o flowerpower não faz mais sentido após mais de 40 anos do primeiro Woodstock, ninguém mais dá a mínima para bandas como Os Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados, Tom Zé, Doces Bárbaros, Ave Sangria, A Cor do Som, Bicho da Seda ou A Chave ( e isto porque só mencionei bandas brasileiras). Se um dia "a música como principio organizacional", tão sonhado nos versos de Nietzche, poderia ser o reflexo do movimento hippie, hoje não é mais do que uma utopia, uma tentativa frustrada. No passado apenas músicos tentando fugir das maneiras de poder, da angústia do cotidiano, morando em suas comunidades e não fazendo nada além de se deixar mover por sua vontade.
A questão é que a comtemporaneidade vai bem, obrigado... para aqueles que não se importam em viver numa vitríne de valores, que se contentam com sua espúria e limitada liberdade de consumo (você prefere o all star preto e/o azul? Quantos sachês de ketchup? Mais bebida, senhor? Marlboro ou Lucky Strike? As casas Bahia fazem tudo em 600 prestações, tudo para o bem estar de sua família) ou ainda para pessoas que almejam coisas simplórias como um emprego estável, uma mulher submissa, uma família nuclear com dois filhos para poder ir à missa aos domingos e poder disputar neste conclave social qual é a família que mais se parece com à de um comercial de margarina... ah, é claro, tinha me esquecido do carro modelo 2011 que vai demorar 20 anos para que o dono deste emprego estável consiga pagar a dívida, mesmo sem a perspectiva econômica de conseguir grana para colocar a gasolina não subtrai a felicidade deste de poder lavá-lo todos os domingos a tarde, mostrando para todos os seus vizinhos quem é o maldito burguês em ascensão neste bairro imundo...
Não! Eu não quero nenhuma destas alternativas pra minha vida, assim como não quero perder mais meus finais de semana em festivais culturais burgueses de "música popular brasileira".... enfim, isto é apenas um desabafo de alguém que deveria ter nascido há 50 ou 60 anos atrás...
"Hey bicho, onde é que vai com essa flor no cabelo, com este sorriso de paz e desespero... olhe pro lado e você vai entender, entender..."
- Teddy Boy, Rock e Brilhantina, Raul Seixas