"Um amigo me disse, certa vez, que o maior erro que podemos cometer é acharmos que estamos vivos quando, na verdade, estamos dormindo na sala de espera da vida."

domingo, 13 de março de 2011

A Loucura Torna a Vida Suportável

"Suponho que alguém olhe lá de cima a vida do homem, como o Júpiter dos poetas o faz por vezes, e observe a quantidade de males que o acabrunham., seu nascimento humilhante, sua educação difícil, os perigos de sua infância,  os duros trabalhos impostos em sua juventude, sua penosa velhice,  a dura necessidade de morte, após tantas doenças, problemas que o assaltam de todos os lados, que envenenam sua vida inteira. Sem falar dos males que o homem causa ao homem: ele destrói, prende, desonra, tortura, prega peças, trai. Enumerar tudo, com ultrajes, os processos, as trapaças, seria como contar grãos de areia.
Não saberia dizer que malefícios trouxeram tal sorte ao homem, nem que Deus irritado os condenou a nascer nessa miséria.Quem quiser analisar a fundo essa condição, haverá de aprovar o exemplo das jovens de Mileto e seu suicídio, embora digno de compaixão. Quais foram aqueles que se suicidaram motivados pelo desgosto da vida? Os amigos mais próximos da sabedoria. Para não falar de Diógenes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto, lembro de Quirão que preferiu a morte no momento que podia conseguir a imortalidade. Acredito que pressentis muito bem o que haveria de acontecer, se por toda parte os homens fossem sábios. Seria necessário que outro Prometeu petrificasse outra argila. De minha parte, bem pelo contrário auxiliada pela Ignorância e pela Irreflexão, levo os homens a esquecer sua miséria, esperar a felicidade, a provar de vez em quando o mel dos prazeres, mesmo quando as Parcas teceram toda a sua trama e que a própria vida os abandona.
A vida não os aborrece de modo algum. Quanto menos motivos tem pra viver, mais se agarram à vida. São meus adeptos esses velhos que atingiram a idade de Nestor e que perderam quase toda a forma humana, que são bistos balbuciando, falando disparates, com dentes partidos, de cabelos brancos ou calvos ou, para descrevê-los melhor, com as palavras de Aristófanes, sujos, corcundas, calvos e desdentados, sem queixo, mas agarrando-se ainda com gosto à vida. Por isso procuram rejuvenescer-se, um tingindo os cabelos, outro usando peruca, este colocando dentes falsos e fazendo com ela mais loucuras que um jovem em pleno vigor. Aquele moribundo, prestes a pôr o pé no túmulo, casa sem dote com um broto que vai fazer a alegria dos vizinho; esses casos são freqüentes e, juro, ainda são motivo de elogio.
Mais encantador ainda é ver velhas, tão velhas e cadavéricas que aparecem ter voltado do inferno, repetir sem cessar: "A vida é bela!" São quentes como cadelas no cio ou, como dizem despudoradamente os gregos, pressentem o cheiro de bode, Seduzem a preço de ouro qualquer jovem Faon, se maquiam com esmero, estãoi sempre de espelho na mão, depilam-se no lugar secreto, ostentam seios flácidos e murchos, pedem com voz trêmula a satisfação de um desejo que fenece, põem-se a beber, dançar entre as jovens, a escrever cartas amorosas, Todos se riem delas dizem realmente o que elas são, superloucas. Esperando uma oportunidade, elas estão contentes consigo mesmas, se satisfazem com mil prazeres, aproveitam todas as delícias e, para mim, elas são felizes.
Peço que todos aqueles que as acham ridículas analisem se não é melhor desfrutar dessa doce loucura do que procurar, como se diz, uma árvore para se enforcar. Certamente, a desonra não se atribui à conduta de meus loucos nada significa para eles,  sequer se mantém atingidos ou não dão atenção nenhuma. Levar uma pedrada na cabeça é um mal que existe; a vergonha, a infâmia, , o opróbio, o insulto são males a partir do momento em que os sentimos. Não há mal algum quando nada se sente. Todo mundo te vaia; não é nada, se tu te aplaude e somente a Loucura te leva a isso."